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Admiro os argumentistas que conseguem criar boas comédias. E aqui com todos os meus ingredientes preferidos: uma família, alguns amigos, um cão, uma paisagem de prender a respiração, e uma verdadeira aventura. 

Achei engraçado o resumo na página do IMDB: a história da mulher que gosta mais do cão do que do marido. E um dia o marido perde o cão...

Se formos justos, o cão é a personagem principal, embora apareça apenas no princípio e no fim do filme. O cão está sempre presente, mesmo quando está ausente. Ele é a personagem que irá ligar a família e ajudá-los a valorizar o que verdadeiramente importa. E sem lamechices, mesmo quando mostra o lado chato da vida dos cães: abandonados, colocados em canis superlotados, abatidos quando não adoptados. E já para não falar do lado chato da vida das pessoas: envelhecer, os problemas dos ossos, as pedras nos rins, os exames médicos.

O que sobressai neste filme: o guião, as personagens, o ritmo certo dos diálogos, os actores. Nos filmes de Kasdan as personagens brilham. Há sempre uma certa excentricidade, uma luninosidade, uma rebeldia, uma alegria, distribuídas em doses generosas pelas personagens. A tristeza pode abaná-las mas não as derruba. É essa a marca registada de Kasdan. 

A importância do cão já a vimos numa tragédia, o Turista Acidental, e também no papel de aproximar o homem triste e solitário da mulher alegre e sociável. 

Aqui, depois de salvo na auto-estrada pela mãe e filha, conseguirá a proeza de arranjar o marido perfeito, o veterinário, para a filha, fazer companhia à mãe na fase do ninho vazio, aproximar o casal que está desintonizado e ainda ajudar o sobrinho a aceitar o novo namorado da mãe (dele). 

 

 

 

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publicado às 21:44

As encruzilhadas da vida e a magia da atracção

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 14.11.10

 

Duas surpresas cinematográficas: As Confissões de Schmidt e A Maldição do Escorpião Jade. Dois filmes no mesmo dia, num daqueles canais-que-passam-filmes. Que resisti por diversas vezes a ver, vá-se lá saber porquê. Bem, As Confissões de Schmidt não me atraiu quando saiu o trailer publicitário. A ideia de um homem zangado e amargurado, numa atmosfera cinzenta, não me entusiasmou na altura. A Maldição do Escorpião Jade pareceu-me muito rebuscado, a começar pelo título.

 

Mal sabia eu que As Confissões de Schmidt era muito mais do que alguns dias difíceis de uma vida solitária. É a aceitação da realidade após a revolta e a tentativa de dar mesmo a volta ao filme da vida. É a visita aos locais-chave de um percurso e colocar tudo em perspectiva. É respeitar os outros mesmo que não se queira partilhar a vida com eles. É delimitar essas fronteiras para poder conviver. É render-se, não controlar a vontade de outro, apenas manter intacto o seu próprio espaço e lista de prioridades pessoais. É partilhar com quem se quer finalmente partilhar alguma coisa de verdadeiro, real, palpável, tocar uma outra vida de forma leve e benéfica. É isso afinal que ficará de Schmidt, a sua influência na vida de um garotinho africano.

A parte mais comovente do filme está nesse monólogo de Schmidt ao regressar a casa, depois dessa aventura e desse percurso, e na leitura da carta de África e no desenho de Ndugo. Mas a minha parte preferida é, sem dúvida, o discurso no casamento da filha. É com esforço e num terrível conflito interno que Schmidt decide pegar, no discurso, pela parte luminosa dos anfitriões, o noivo e os pais do noivo. Depois de ter verificado nada poder fazer para impedir o erro do casamento, resta-lhe respeitar a filha e minimizar os danos futuros. É preciso discernimento e coragem, não acham?

 

E mal sabia eu que esta Maldição do Escorpião Jade guardava lines fabulosas em ritmo frenético e numa atmosfera muito cinematográfica à anos 40, onde as mulheres eram criaturas belas e misteriosas e respondiam à letra às tiradas masculinas! Woody Allen veste muito bem o papel de um detective de uma companhia de seguros e até a, por vezes irritante, Helen Hunt, vai maravilhosamente bem no papel de colega competitiva.

A história está muito bem engendrada, digamos que já tinha saudades destes guiões criativos, mas o que sobressai são mesmo os diálogos inteligentes, cheios de ritmo, de ironia e sarcasmo, os ingredientes da atracção. A magia que pensávamos estar na hipnose, estava afinal na atracção que os dois colegas-detectives não querem assumir. Estes ingredientes vimo-los em filmes dos anos 40, o estilo sexy e misterioso, os segredos, as supostas rivalidades, as discussões, a fúria, o enganador desprezo, para logo depois caírem nos braços um do outro.

O cinema era assim, não imitava a vida real. Daí esta line fabulosa de Woody antes de beijar a Helen: Antes de acordarmos para a vida real... E têm direito a fogo-de-artifício e tudo! Woody Allen gosta muito de jogar com o sonho e a vida real nos filmes, é um jogo duplo que funciona muito bem.

O momento mais fabuloso será mesmo no final. Woody pensa que a Helen ainda está sob o efeito da hipnose, mas joga a última cartada. Quando se apercebe que ela também já tinha sido desprogramada, fica sem palavras, pela primeira vez no filme todo, fica sem palavras. Esse momento é fabuloso.

 

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publicado às 17:44


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